Aos 23 anos, Daiany Miranda, esbanja graça e beleza com os cabelos naturais. Por volta dos anos 90, ainda criança, tinha os cabelos compridos e crespos. Como muitas meninas entrevistadas nesse blog, ela também usava tranças e conta que a mãe passava as tardes de sábado desembaraçando os cabelos dela.

Ela lembra que quando tinha 11 anos, ao realizar a primeira comunhão fez um penteado que precisava alisar e depois disso o cabelo não voltou mais ao normal. Desde então passou a usar produtos químicos. Daiany fez alisamento durante seis anos, até que com 17 anos optou pela transição capilar, algo que ela considera a maior mudança na vida dela.

Na época, o movimento da transição não tinha a notoriedade de hoje. A modelo resolveu parar de alisar os cabelos por questões financeiras na família, e foi percebendo que conforme a raiz ia crescendo, já sentia os cachinhos, foi então que resolveu dar uma chance para conhecer o cabelo. Ela lembra que a decisão não era definitiva na época, pois caso não gostasse do novo visual voltaria para os alisamentos.

Durante a entrevista, Daiany comentou que antes não tinha esse suporte da indústria de cosmético. Ela analisa que essa fase não faz muito tempo, refere-se há apenas seis anos atrás. “Deu um “boom” que muitas mulheres começaram a querer se assumir e as marcas acabaram abraçando essa ideia e isso foi muito bom”.

Desde cedo as pessoas próximas falavam que ela deveria ser modelo. Aos 18 anos, ainda na fase da transição, resolveu procurar uma agência e se surpreendeu. No primeiro ano como modelo ela teve quatro trabalhos, um deles foi ter o rosto estampado num outdoor do vestibular da UDESC espalhado pelo estado inteiro, algo que ela considerou bem impactante.

Na trajetória da modelo, há campanhas de marcas como Johnson, Havan, Renner, Bottero entre outras marcas de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Quando questionada sobre a quantidade de modelos negras dentro da agência que ela trabalha ela diz que não sabe mencionar, mas garante que as que mais trabalham é ela e outra mulher negra. Ela acredita que não chega a dez modelos negras, e comenta que no sul é complicado, geralmente é duas ou três.

Na agência em que trabalha, ela conta que o cabelo afro é valorizado. A modelo comenta que eles querem negras assumidas, porém, para os trabalhos, ela precisa dar conta das madeixas sozinha porque geralmente não tem um profissional que saiba lidar com os cabelos dela. Daiany conta que no Sul a preferência é por loiras de olhos azuis, e que recebe como justificativa que o perfil “Black”, marca muito por causa dos cabelos.

Sobre o movimento da transição capilar ela considera algo maravilhoso. Pontua que hoje em dia as mulheres recebem apoio nas redes sociais e se ajudam. “O movimento da transição veio para unir as mulheres negras.”

A jovem modelo, que também estuda enfermagem na UFSC, ficou um ano e quatro meses na transição, período que ela julga difícil. “Eu não sabia o que era uma transição, não tinha ninguém passando por aquilo ali, eu não tinha referência nenhuma, as crespas que eu conhecia eram as da TV”.

A modelo finaliza dizendo que não entende certos comentários a respeito da pele e do cabelo natural. Ela relata frases do tipo: você já acorda pronta? Ou como você faz para lavar o cabelo? Ela pontua que vê mulheres de cabelo Black na rua e acha normal, mas que sempre precisa dar explicações a respeito dos cabelos para alguém.

Ouça a entrevista na íntegra:

 

Fotos: Miguel Machado

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