O movimento de transição capilar para a mulher negra significa muito mais do que uma simples mudança de estágio de cabelo com química para cabelo natural. Essa mulher não está somente resgatando uma herança, como também afrontando uma sociedade padronizada que, em alguns casos, age com intolerância. A rejeição, os abusos de preconceito, faz com que essa transição seja um momento difícil e delicado. A questão é bem mais complexa do que parece, por isso é de suma importância conhecer todo o contexto em volta, antes de julgar esse processo como fácil.

Para descobrir o porquê da importância de conhecer a trajetória negra no Brasil para entender o movimento de transição capilar, conversei com o professor de história e coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB), da UDESC, Paulino de Jesus Cardoso, que nos orienta nesse contexto.

“Cabelo não é apenas um adorno na cabeça, em torno dele, gira uma série de valores culturais”, afirma Paulino. Toda a temática da escravatura dos negros traz uma parcela da tristeza de um povo. Mesmo as novas gerações, inevitavelmente, bebem desse passado através das histórias de exclusão social, racismo, preconceito e inúmeras outras formas de discriminação que resultam falta de identificação.

A mulher negra, em especial, sofre com o ato de “domar” os cabelos desde muito cedo, está enraizado na vida dessas mães, avós e assim por diante, explica o professor Paulino. Ele revela que vivenciou na própria família, situações em que as mulheres sofriam com instrumentos que ele considera de tortura, como pentes de ferro, cremes carregados de formol causando danos à saúde e na autoestima das mulheres da família dele durante muitos anos.

O professor avalia que a transição é vital, porque nas últimas décadas tivemos um empoderamento da população negra, inclusive de educação, que fez com que essas pessoas se libertassem de gigantescas prisões simbólicas, uma delas é da não aceitação, ou seja, o fato de a pessoa negra se olhar como um sujeito feio, e não achar os traços bonitos. A multiplicidade dos cabelos crespos e as formas de amarrações como no caso de uso de turbantes e acessórios, de acordo com Paulino, é a forma de mostrar para a sociedade que não são apenas descendentes de escravos e sim uma sociedade absolutamente plural e multicultural, afirma o professor de história.

O fato das mulheres negras estarem buscando a real identidade não é por acaso, tem tudo a ver com uma mulher cosmopolita e atualizada. Essa mudança se deu, a partir da evolução na sociedade como um todo. Assim como as mulheres estão buscando espaço em diversas áreas como forma de afirmar a competência, a mulher negra não fica de fora e surge uma nova geração que não vai ser pacífica diante das imposições ou exclusões da sociedade.

As histórias de que muitas negras usavam ferro quente para alisar os cabelos comprovam a característica de um período difícil, onde a mudança era quase impossível. Esse passado não muito distante, ainda está presente no imaginário dessas mulheres, acredita o professor. Por isso é difícil quebrar e confrontar certos paradigmas, a transição capilar é apenas um viés dos muitos movimentos de afirmação da raça negra.

Paulino considera que os reflexos que permeiam a vida da mulher negra foram gerados ao longo dos anos por uma sociedade burguesa que acreditava que os negros eram inferiores. “É importante esse amadurecimento, com o intuito de que essas transformações sejam levadas a diante à medida que iram ajudar as novas gerações a não cometerem os mesmos erros de seguir um padrão e buscar de fato a sua real identidade”, conclui o pesquisador.

Confira o Podcast do Professor Paulino de Jesus, professor de história e coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB), da UDESC

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http://revistacabelos.uol.com.br/a-historia-do-alisamento-atraves-das-decadas/

http://veja.abril.com.br/complemento/entrevista/alexandra-loras.html

http://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/01/por-que-o-brasil-e-um-dos-paises-mais-racistas-do-mundo.html

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